Resenha de Wagner de Assis

Posted by on 12 de janeiro de 2012

O Livro de Joaquim – Tempo Perdido

O verbo descobrir precisa ser melhor analisado – antes de emprestar ao seu autor a façanha, há que se pensar no objeto em si, que, mais das vezes, já existe em algum lugar e tempo no espaço. Foi descoberto como algo já estava lá,  escondido do mundo. O mérito de seu autor é puxar o véu, abrir a porta, deixar sair. Atualmente, apenas os cientistas descobrem alguma teoria, fórmula ou combinação química. Mas eis que entendo que descobertas precisam estar presentes no mundo da arte. Artistas também descobrem.

Não tenho dúvidas em afirmar que  “Livro de Joaquim”, primeiro volume de Tempo Perdido, foi descoberto pela sua autora, Laura Malin. Talvez essa seja a primeira sensação que aparece ao terminar sua leitura. Sim, essa história vivia nalgum lugar e dimensão dentro dela. O que a Laura fez, com muita coragem e talento, foi puxar a primeira palavra e depois a primeira imagem e continuar puxando e puxando para trazer ao nosso mundo o amor quase-impossível entre dois seres imortais.

Numa primeira impressão, o subtítulo poderia ser uma clara alusão ao tempo perdido de Marcel Proust, aquele que o impede de ser e estar realmente, mas que somente a arte e seu caráter transgressor de realidades permitem encontrar. Laura me disse que não era uma referência ao escritor francês e sua incrível “descoberta” na busca por um tempo perdido. Ela me lembrou de outro tempo perdido, aquele do Legião Urbana, mais acessível atualmente ao mundo moderno. Eu lembrei de mais meia-dúzia de tempos perdidos e achei que a historia de Joaquim e Leah realmente deveria estar perdida e foi encontrada pela Laura. Afinal, temos todo o tempo do mundo.

Nada mais justo, então, o título, o crédito e o tempo perdido. Pouco importa se o perfume da heroína possa ser comparado ao aroma do chá da Madeleine, ou se a angústia eterna de Joaquim possa ser parecida com aquela cantada pelo Renato Russo. Histórias de amor parecem ser eternas porque se reinventam dentro do mesmo universo temático. Mas, como garrafas vazias boiando no oceano, acabam sendo únicas, indivisíveis e atemporais. Elas são de quem as encontrar.

O romance, então, cumpre com um louvor raro atualmente o que se espera de um romance – que nos apaixonemos pelos personagens e torçamos para que “fiquem juntos no final”. Neste Livro de Joaquim, a história é contada do ponto de vista dele – um cara que nasceu no século XVIII e, aos 27 anos, em pleno 1824, num desses momentos mágicos da vida, ao encontrar aquela que usamos o clichê como sendo “a mulher de sua vida”, acaba sofrendo uma bendição (porque jamais pensei que fosse maldição) e ganha a impossibilidade de morrer. Mas morre de amor e vaga os anos e séculos e atravessa própria história oficial atrás do reencontro com ela, sua amada, também imortal, em meio a tantos desencontros.

Nossas descobertas são nossos reencontros. Eles sempre existirão e nós precisamos apenas cumprir o planejado. Não hesito em afirmar que a Laura reencontrou, então, a garrafa perdida dessa história no meio do oceano dela mesma. A paixão não é a dela. As imagens não são dela, como criadora da trama. Podem até ser, para aqueles que não sabem a força que uma história tem, cumprindo os adereços oficiais que emprestam seu nome ao título de autor. Doce enganação. A autoria dessa história é de Joaquim. Ele, vivo, humano e imortal, é quem a detém. E conta, com uma franqueza de deixar a gente com uma ponta de vergonha por esconder migalhas em poucos anos de nossas vidas, todas as suas “vidas” ao longo de mais de 200 anos. Ao mesmo tempo, a paixão que emerge das páginas é daquelas que deixam uma pontinha de dúvidas quanto ao final – e, na antítese do lugar-comum, não queremos saber se os personagens vão morrer, mas sim se eles vão voltar a viver normalmente.

É leitura ágil, estruturada e escolada nos bons roteiros de cinema, mas sem as nuances necessárias para tanto, ou os artifícios de linguagem que os best sellers imprimem. Engenhosa, tem o mérito de não escorregar no lugar-comum e interferir diretamente com a história oficial, quando sabemos que não é “verdade”, e acreditamos tanto na existência daqueles personagens.  Se dá um filme? Absolutamente. Um filmaço. Mas antes de ser descoberto nas telonas do cinema, este Livro de Joaquim precisa mesmo é ser sorvido ao longo das datas, dos choros e dos gozos daquele doído sentimento de imortalidade que só acomete mortais.

Afinal, o que mais doce pode existir do que descobrir dentro de si um sentimento imortal como um amor capaz de furar a fieira de anos? Você pode se apaixonar mais por Leah do que por Joaquim, “dialogando” com ele, perguntando porque não fez isso ou aquilo. Pode se contrariar quando uma virada quase folhetinesca doer com razão em seu coração. Pode ver a respiração alterada e os olhos correndo mais e mais através das palavras para também descobrir, a seu modo, o que está de fato sacramentado nesse amor.

Mas uma coisa você não vai fazer: passar incólume. E outra: deixar de olhar para dentro de si e pensar nos milhares de segundos que já viveu – que podem ser comparados a anos e anos de existência na relatividade do tempo. Por fim, também não vai deixar de buscar uma resposta mágica para as perguntas existenciais, deixar de elogiar o talento da autora de provocar todas essas reflexões na gente com sua arte ou, por ultimo, mas não menos importante, não vai deixar de ler até o fim, sem perder tempo.

Wagner de Assis

Cineasta e jornalista

Comments are closed.